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Velhinhos

Emocionante. Realmente não existe outra palavra para descrever a sensação de ver e ouvir mais de 200 velhinhos cantando “Mamãe eu quero mamar, “Cidade Maravilhosa” e “Bandeira Branca”. Marchinhas carnavalescas conhecidas por todos. E eu lá, no meio deles, em plena quinta-feira à tarde, no Teatro das Artes (RJ), completamente extasiada. Mas o que era tudo isso? O fantástico espetáculo musical “Sassaricando, e o Rio inventou a marchinha”. Idealizado por Rosa Maria Araújo e Sérgio Cabral (o pai, pelo amor de Deus!), traz em seu elenco nada mais nada menos do que o intrépido Eduardo Dusek.
Ver todos aqueles idosos cantando e dançando era o mesmo que enxergar em seus olhos as histórias do passado.
E me coube a pergunta: Por que tanta gente despreza os idosos? São tão maravilhosas as coisas que eles contam. Sua vivência e o peso dos anos presenteiam-nos com verdadeiras pérolas de sabedoria. De mais a mais, todos acabaremos sendo velhinhos um dia. Este é fluxo natural nas coisas. Talvez o grande X desta equação esteja com ambição humana pela jovialidade, por viver eternamente. E como conseqüência desta suposta perspectiva anti-envelhecimento, desprezam-se os velhos.
Mas não é tão incomum encontrarmos por aí algumas Dóris (personagem que maltratava os avós na novela Mulheres Apaixonadas).
Sempre amei ouvir meus avós. E também tive o privilégio de poder conviver com duas bisavós. Um verdadeiro tesouro.
Entender suas necessidades, formas de agir e maneiras de pensar são as prerrogativas para a construção de uma relação de respeito com o idoso.
A desvalorização e desumanização dos velhinhos está enraizada na evolução da desestruturação familiar. Da humilhação e mal-trato no âmbito familiar, para o desrespeito social foi só uma questão de tempo. Uma daquelas situações em que temos certeza de que o homem involuiu.
Não importa muito qual o período analisado, na história da humanidade, seja nas culturas mais antigas ou nos países mais jovens, os significados atribuídos ao “ser velho”, ao envelhecer, sempre foram marcados por profundas contradições. Uma pessoa velha pode ser considerada com um individuo que merece e impõem respeito ou como um ser completamente desprezível. Não raro, escutamos hoje frases em que o emprego da palavra “velho” configura algo muito mais pejorativo e depreciativo do que lisonjeiro.
Em culturas tradicionais o idoso sempre foi visto como símbolo de sabedoria, através do ato de lembrar e de dar expressão às suas memórias. Para determinadas culturas ele é considerado a continuidade da história, representando o binômio memória - continuidade de valores. É assim nas sociedades indígenas, onde o idoso tem um papel fundamental na transmissão de conhecimento, ou no Japão, onde existe uma relação de extremo respeito pela população idosa. A perda da continuidade e a desvalorização do idoso é um elemento marcante da sociedade industrial, produtivista e consumista.
Graças à redução da taxa de fecundidade e à queda do nível de mortalidade, o Brasil passa por um processo chamado “envelhecimento populacional”. Vamos trocar em miúdos. Imaginem que entre 1940 e 2000 a esperança de vida do brasileiro passou de 42,7 anos para 64,7 anos (homens) e de 47,1 anos para 72,5 anos (mulheres). O resultado disso é que hoje temos 20 idosos para cada 100 crianças. É um contingente e tanto!
Mas enganam-se aqueles que imaginam ou acreditam que velhice é sinônimo de incapacidade. A verdade é que os idosos não nos fazem um povo fraco. Eles transformam nossas vidas, nossas perspectivas, nos ensinam através de suas experiências, suas histórias. São eles que tornam qualquer nação mais confiante, mais sábia, mais experiente. Já é comprovado que a maneira como uma sociedade envelhece influencia diretamente em aspectos políticos, econômicos e sociais. Um fato que não ocorreu em nenhuma outra época, ocorrendo em diversos países nos últimos anos.
Mas a própria sociedade fomenta o preconceito contra o idoso, o que fazer?
Depois de muito esperar o idoso brasileiro passou a ter garantias estatais de que sua cidadania seria reconhecida tal qual a de qualquer outro cidadão. Por isso, em 2003, entrou em vigor o “Estatuto do Idoso”. Foi o primeiro passo na luta pela dignidade perdida. Neste documento encontramos diretrizes e normas para as mais variadas situações, penalidades previstas para crimes cometidos contra idosos, além de assegurar juridicamente todos os direitos daqueles que se encontram na terceira idade. Dentre as ações criminosas cometidas contra idosos, tornaram-se passíveis de prisão e pagamento de multa:
• Coagir, de qualquer modo, o idoso a doar, contratar, testar ou outorgar procuração.
• Reter cartão magnético de conta bancária relativa a benefícios, proventos ou pensão. do idoso.
• Abandonar o idoso em hospitais, casas de saúde ou asilos.
• Deixar de prestar assistência.
• Desdenhar, humilhar, menosprezar ou discriminar pessoa idosa, por qualquer motivo.

Vale a pena lembrar que assim como a juventude, a velhice não passa de uma categoria criada culturalmente. Como disse Pierre Bourdieu:

“A idade é uma variável biológica socialmente manipulada.”
in Questions de Sociologie, 1980

7 comentários:

CarOl disse...

Isso aew, eles fizeram tanto por nós, agora merecem todo o reconhecimento!!!
Fiquei curiosa pra vê a peça, vou esperar aki em Pernambuco!! bjus

Júlia M. disse...

Adoro vôs e vós. Eles sempre têm histórias pra contar, experiências a compartilhar, coisas que nós jovens ainda não vivenciamos... a gente devia tomar vergonha na cara e aprender um pouco com eles, em vez de tratá-los como se fossem descartáveis.

Acho que colabora com isso o medo que temos da velhice. Tentamos retardar isso tanto quanto possível, fazendo plásticas, colocando botox, tratamento anti-rugas, tingindo os cabelos... que bobagem! Eu não tenho medo de envelhecer. Vou aproveitar tudo o que puder, pra quando chegar lá, ter uma boa bagagem pra compartilhar com meus filhos, netos, amigos, quem mais se interessar...

Pedro Aruvai disse...

primeiro parabéns pelo site, maravilhoso! lindo! adorei!

quero agradecer por escolher meu blog no "selo". Obrigado de coração! fiquei muito feliz. nossa, quanta honra! obrigado, Barbara. Muito obrigado mesmo! Muito legal! adorei! beijão!

Tais Luso de Carvalho disse...

Como sempre...ótimo! Penso o mesmo e tenho o maior carinho por qualquer idoso. Adorei o relato, cheio de verdades.
beijos, amiga!
tais

João52 disse...

Adorei seu blog... aproveito estar aqui para lhe agradecer a visitinha e o coment lá no "nosso" cantinho...

SaUdações Poéticas Joao52

mfc disse...

Não podia gostar mais da forma como trataste este tema bem difícil... e actual.
Parabéns.

. disse...

André Agui.
Teu blog é espetacular, virou minha leitura semanal.
Bjs

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