Avatar

Enem que a vaca tussa...

Bem que eu pretendia ficar caladinha, não falar nada sobre isso...
Meu lado ativista não deixou passar em branco.

Mais uma vez o Enem conseguiu se superar.

Em história, uma questão pediu para comparar os filmes "Um príncipe em Nova York" e "Ace Ventura" e dizer o que os filmes relatam e omitem sobre o continente africano. Em primeiro lugar, a pergunta é: Era obrigatório aos candidatos assistir filmes de 1988 e 1994? A grande maioria dos candidatos com certeza nem tinha nascido quando os citados filmes foram lançados.
Teve também a questão da prova de Linguagens, que trazia a letra da música "Até quando?", do reflexivo Gabriel, O pensador. Muito bom usar elementos da cultura pop em questões de concurso mas, de acordo com o próprio Gabriel, a questão tinha várias alternativas como respostas corretas.
Observem!
Foram usados os seguintes versos da música: 
"Não adianta olhar pro céu
Com muita fé e pouca luta
Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer
E muita greve, você pode, você deve, pode crer
Não adianta olhar pro chão
Virar a cara pra não ver...".

Gabriel, O Pensador
Depois, a pergunta: 
Qual a qualidade principal do trecho?
A) Caráter atual, pelo uso da linguagem própria da internet
B) Cunho apelativo, pela predominância de linguagens metafóricas
C) Tom de diálogo, pela recorrência de gírias
D) Espontaneidade, pelo uso da linguagem coloquial
E) Originalidade, pela concisão da linguagem


Agora levanta a mãos quem concorda que a questão pode ter mais de uma resposta correta...
Mas a coisa não parou por aí...
Karl Marx
As filosofias de Descartes, Marx, Kant, Bacon e Maquiavel também foram temas de questões. 
Nada de outro mundo, afinal, todo mundo estuda isso nos conteúdos programáticos de história, sociologia e filosofia, certo?
Ah, por favor, me dê uma garapa.
Em 2008, a Lei 11.684 alterou o artigo 36 das Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e tornou obrigatórias as disciplinas de Filosofia e Sociologia em todas as séries do ensino médio. A legislação instituiu que as escolas teriam quatro anos para se adaptarem. Assim sendo, passou a valer mesmo em 2012.
Mas não se espantem: As escolas acabam "burlando" a lei, quando se diz Filosofia e Sociologia em todas as séries do Ensino Médio. Não é o que ocorre na realidade, as matérias são intercaladas e os alunos ou tem filosofia ou sociologia em cada série!
A lei existe, mas as formas de aplicabilidade para a mesma não foram discutidas e nem pensadas. 
Uma pena!
Mas isso não é surpresa... 
Quem paga o pato é o pobre estudante que tem que fazer Enem.
Enquanto as provas do Enem não se tornarem algo desprovido do proselitismo político da atual situação, nada mudará na esfera da educação.
Afinal não é fingindo que temos um perfeito sistema educacional que o mundo vai ficar cor-de-rosa e nós pularemos dezenas de posições nos rankings mundiais de educação.
Muita coisa precisa melhorar, mas se eu começar a falar sobre isso aqui, esse post não acaba hoje.
Quem quiser saber mais, pode ler em:


Avatar

Sociedade Deletéria

Cada vez que entro no Facebook me surpreendo com alguma coisa. 
Quem leu o post anterior sabe que já falei sobre isso...
Mas não pude deixar passar...
Ultimamente tenho me espantado em como a rede social  vem sendo usada.
Primeiro vamos falar de uma certa lista de redução de mesada por infrações cometidas pelos filhos. 
A tal relação continha itens como: Não colocar o cinto de segurança, não ir à escola, deixar a torneira aberta, matar a aula do inglês ou a natação e por aí vai...
A proposta do brilhante ser humano que criou isso, seria punir os filhos que fizessem tais coisas, descontando dinheiro da mesada. 
Vi estarrecida, centenas de pessoas adorando a tal lista. Comentando coisas como: "Excelente", "Vou adotar aqui em casa", Gostei muito...
Mas espera aí.
A primeira coisa que pensei foi: Onde é que está o juízo dessa gente?
Será que não é possível enxergar o absurdo disso?
Como é que pais e mães vão barganhar com os filhos coisas como: colocar ou não o cinto de segurança, ir ou não à escola, desligar ou não a torneira, almoçar ou não...?
Que loucura é essa?
Onde é que uma criança vai ter autonomia para escolher o que quer fazer em relação a sua segurança física, sua orientação intelectual?
Se os pequenos podem se governar, para que então precisam de pais?
Francamente, onde fica o respeito aos pais, a referência familiar, a estrutura e o papel social da família?
Será que estão reduzidos aos conceitos capitalistas do lucro ou prejuízo?
Triste, muito triste adotar com crianças a máxima: Eles só aprendem quando sentem no bolso. 
Afinal, são crianças ou criminosos de colarinho branco?
E a coisa fica pior ainda quando encontramos milhares de comentários repletos de elogios às tais técnicas.
Sem dúvida alguma, isso é um retrato da total destruição que a estrutura familiar vem enfrentando nas últimas décadas.
Mas as surpresas do Facebook não acabam aqui.
Alguns dias depois, entro e encontro um post de uma amiga que reproduzia um texto, de uma criatura que não vou mencionar nome ou outros detalhes, que valendo-se de uma formação superior e experiência profissional, transmitia aos internautas suas ideias sobre a tragédia ocorrida em Salvador, em que uma médica matou dois irmãos num acidente de trânsito. 
Li todo o texto, muito bem escrito, com palavras escolhidas e parágrafos bem estruturados. Resumindo, o autor fala um pouco sobre a dor da família que perdeu os dois jovens, assim meio por cima, como algo realmente terrível. Mas o objetivo do texto não era esse. Era despertar no público a simpatia pela médica causadora do acidente. 
Com muita condescendência, o texto discorria sobre estruturas psicológicas coletivas, perdão, desequilíbrio emocional, Deus, não julgamento e tal, tal, tal.... 
E perguntava ao leitor: E se fosse sua mãe?
Isso mesmo, perguntava ao leitor o que aconteceria se fosse sua mãe quem tivesse provocado toda essa tragédia.
Fiquei pasma.
Como assim? Se fosse minha mãe?
Parei.
Não acreditei.
O que essa pessoa queria mesmo?
Defender e tomar uma posição em defesa da médica, apelando para conceitos como perdão, não julgar e tal?
Não julgo o acontecido.  
Realmente foi uma tragédia.
 Todos saíram perdendo pois não se enganem, a vida da médica também acabou.
O que mais me choca é que nesses momentos de crise, sempre surgem especialistas em tudo, discorrendo sobre esse mundo e o outro, expondo milhões de teorias e estudos, indo a programas de TV e rádio, dando entrevistas para revistas e sites da internet.
Para que?
Para convencer a população de que isso tá certo e aquilo errado?
Para lançar o nome na mídia e depois colher os louros por isso?
Ao final do texto, a pergunta que fiz foi a seguinte: E se fosse um pobre, motoboy assalariado que tivesse em um dia de fúria jogado sua moto contra o carro de uma médica bem de vida, como as coisas seriam?
Será que esse pobre encontraria defensores tão sagazes e altruístas que justificassem seu ato criminoso de maneira tão nobre?
A hipocrisia da sociedade me choca.
Centenas de pessoas compartilharam o texto, comentaram, se disseram emocionadas.
Mas quantas foram capazes de assumirem seus pensamentos reais, de não se deixarem levar por palavras bonitas?
Não sei.
Ah, e ainda tem mais uma.
Um usuário da rede social publicou uma montagem de fotos onde apareciam ativistas que resgataram os Beagles em São Roque(Sorocaba) e o caso das crianças indígenas enterradas vivas por seus próprios familiares no Mato Grosso. Duas coisas bem diferentes. Mas o tal usuário fazia uma comparação, dizendo que as pessoas simpatizavam com a causa dos cães e não se importavam com os índios. Ora, faça-me o favor. São duas causas distintas e nunca, nunca mesmo, uma vai desmerecer a outra. São duas lutas muito dignas. Mas o povo, alienado, parece louco para tornar suas quaisquer palavras vindas de um estranho que não conhecem, só porque soam politicamente corretas.
Sinto medo da forma simples como se manipulam as massas.
A palavra nunca deixou tão clara sua força, como vem fazendo através das redes sociais.
Arnold Toynbee



"Os componentes da sociedade não são os seres humanos, mas as relações que existem entre eles."
Arnold Toynbee
Economista Britânico




Avatar

Imparcial parcialidade

A linguagem foi uma das maneiras encontradas pelos seres para estabelecer comunicação. Utilizada a todo e qualquer instante, seja para trabalhar, estudar, negociar, planejar, fazer rir ou chorar, informar ou se fazer entender - ou pelo menos tentar - a linguagem é fundamentalmente usada com propósitos sociais. As línguas simplesmente não existiriam se não fossem as atividades sociais das quais elas são instrumento.
O uso da linguagem, seja ela escrita, falada, sinalizada ou gestual, é uma forma de ação conjunta, que surge quando locutores e co-locutores desempenham suas ações de maneiras individuais, porém coordenadas entre si de alguma forma. Assim sendo, podemos dizer que a linguagem incorpora processos individuais, bem como processos sociais pois, falantes, escritores, ouvintes ou leitores devem executar suas ações na condição de indivíduos, se quiserem obter sucesso no uso do mecanismo linguístico, trabalhando juntos como unidades sociais.
Na linguagem humana, os significados só podem ser totalmente compreendidos se analisarmos contexto e interlocutores. Se partirmos do pressuposto de que para haver de fato a comunicação através da linguagem, e que esta depende conjuntamente de ambas as partes individualmente, concluímos que se uma das partes não executar adequadamente seu papel, a comunicação apresentará falha. 
Mas como pode uma das partes não cumprir adequadamente o seu papel?
Antes de respondermos, vamos falar um pouquinho sobre Marshall McLuhan, um dos maiores teóricos da comunicação.
Um dos mais famosos conceitos de McLuhan é o de "aldeia global". Em seu livro O meio é a mensagem, ele afirma que "a nova interdependência eletrônica cria o mundo à imagem de uma aldeia global". Quando ele falou isso, a coisa mais parecida com internet que existia eram as redes de computadores militares norte-americanas. Computador pessoal era apenas um sonho distante. McLuhan falava basicamente da influência da televisão (instrumento inovador na época) na comunicação de massa.
A evolução tecnológica deixa, aqui, de ser mera coadjuvante na vida social: o que é dito é condicionado pela maneira como se diz. O próprio meio passou a ser a principal atração, a informação. Muitas das páginas que estão na internet, por exemplo, poderiam ser livros ou revistas, mas, segundo McLuhan, tornam-se interessantes justamente porque estão em um novo meio de comunicação.
Segundo ele - guardem bem essa frase - "Poucos estudantes conseguem adquirir proficiência na análise de um jornal. Ainda menos têm capacidade para discutir com inteligência um filme."
Uma das mais curiosas idéias de McLuhan é a de que "os meios de comunicação são extensões do homem". Assim como se usa uma pinça para aumentar a precisão das mãos e uma chave de fenda para girar um parafuso, os meios de comunicação seriam, na verdade, extensões dos sentidos do homem. Os óculos, por exemplo, são extensões do olho, a roupa é uma extensão da pele, a roda do carro é uma extensão do pé. 
Estamos aqui chegando à resposta da nossa pergunta anterior.
Se o meios são extensões do homem como propôs McLuhan, como poderiam eles serem meros transmissores de mensagens imparciais?
O fenômeno de concentração da imprensa nas mãos do poder político e econômico converteu-se em uma realidade inegável. Em geral, os meios informativos, vinculados ao poder do dinheiro e que defendem a ordem estabelecida, são confrontados pelo desafio da imparcialidade, nunca alcançada ou sequer desejada.
Nada que vemos em um jornal, internet, revista ou TV, foi ali inocentemente publicado.
É fato e é regra que uma reportagem ou notícia ouça todos os lados envolvidos, isso é o que dará um considerável grau de “imparcialidade” a essa produção. O jornalista é antes de tudo um ser humano, tem suas convicções e seus signos pessoais que sempre irão influenciar sua visão do fato, é também funcionário ou autor de um veiculo – se freelancer produz já pensando a que veículo enviará sua produção – e cada veículo tem sua “linha editorial” ou sua orientação bem definida do que quer “vender”, de qual é realmente seu "produto".
Então onde está a imparcialidade?
Apurar um fato já conta como um ato de parcialidade. Escolhemos a fonte que acreditamos ser a melhor, os ângulos que pensamos serem os mais próprios, a pauta que imaginamos interessar o leitor. Quando escrevemos, colocamos em nossos leads o que achamos mais importante ou interessante. A decisão é do jornalista e não do fato.
Marshall McLuhan
Então, quando nos deparamos com uma notícia sobre uma obra social amparada por um político, uma excentricidade de um famoso ou um prognóstico sobre as novas composições familiares na sociedade, devemos antes questionarmos os reais motivos para tais coisas terem sido publicadas em detrimento de outras. Não se enganem! Nenhum meio de comunicação publica coisas como fotos de casamento gays entre artistas porque acha bonitinho ou politicamente correto. Eles preocupam-se em vender, em publicar algo que as pessoas queiram ver e paguem para isso.
Então voltamos novamente a nossa pergunta anterior: Mas como pode uma das partes não cumprir adequadamente o seu papel?
Simples, quando o poder e o dinheiro vem em primeiro lugar, na garupa de uma sociedade sem proficiência na análise de um jornal e sem capacidade para discutir com inteligência pelo menos um filme.
McLuhan nunca esteve tão certo.

Related Posts with Thumbnails
 
©2007 '' Por Elke di Barros