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No divã do Jornalista

Em 1836 o jornal americano New York Times publicou, pela primeira vez, o nome de alguém que foi entrevistado.

O repórter James Bennet entrevistou Rosina Townsend, dona de um prostíbulo. James foi duramente criticado pelos “coleguinhas”, não só os seus compatriotas, mas também, de outros países. Muitos declararam que esta atitude (publicar as palavras do entrevistado da maneira como foram ditas) transformava o repórter em um mero reprodutor da fala alheia. Não preciso dizer que fizeram muito barulho por nada. Afinal, as entrevistas ping-pong estão aí para deitar por terra tão elementar crítica.

Em 1995 a Editora Scritta publicou o livro “A arte da entrevista”, uma soberba coletânea de 48 entrevistas polemicas, marcantes e reveladoras. Por trás dessa bem sucedida seleção está o jornalista Fábio Altman, um nome que é sinônimo de excelência no que faz.

Em 2004 o livro foi reeditado pela Editora Boitempo, ganhando comentários em forma de desenhos, feitos pelo talentoso Cássio Loredano. Vale a pena alertar que o texto sofreu alterações, cortes e acréscimos. Porém, não deixou de ser encantador.

Adolf Hitler, John Kennedy, Al Capone, Gilberto Freyre, Tolstoi, Madame Satã, Oscar Wild, Pablo Picasso, Marilyn Monroe, John Lennon, Freud, Fidel Castro, Gertrude Stein, George Bernard Shaw, Thomas Edison. Estes são alguns dos ilustres entrevistados.

Como leitora voraz, não poderia me furtar a revelar trechos primorosos.


Thomas Edison

“As coisas são o que são e não o que podem vir a ser um dia.”

The Pall Mall Gazett, 19 de agosto de 1889


Oscar Wilde

“Nós devíamos tratar todas as coisas simples da vida com seriedade, e todas as coisas sérias da vida com simplicidade sincera e calculada.”

St. Jame’s Gazette, 18 de janeiro de 1895



Leon Tolstoi

“Onde quer que haja a violência, o povo estará privado de sua liberdade.”

The Manchester Guardian, 9 de fevereiro de 1905





Sigmund Freud

“Os hábitos e as idiossincrasias mais desagradáveis do homem, como a trapaça, a covardia e a falta de respeito, são produzidos pela sua adaptação incompleta a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre os nossos instintos e a nossa cultura.”

Glimpses of the Great, 1930







George Bernard Shaw

“Existe alguma razão para que os olhos de uma mulher não possam alinhar uma alça de mira, e para que ela não use a inteligência para calcular o vento e puxar o gatilho tão bem quanto um homem? Se o senhor ler o jornal de hoje verá que muitas mulheres tiveram bebê ontem sem a ajuda de nenhuma máquina. Prove que um homem conquistou um feito tão surpreendente e difícil e nós vamos poder sentar e discutir o significado da sua vitória com seriedade.”

Liberty, 7 de fevereiro de 1931



Al Capone

“A virtude, a honra, a verdade e a lei desapareceram da nossa vida. Somos todos uns espertalhões. A gente gosta de fazer coisas erradas e se safar. E se não conseguimos ganhar a vida com uma profissão honesta, vamos ganhar dinheiro de outra maneira.”

Liberty, 17 de outubro de 1931




Adolf Hitler

“Nos meus planos para o Estado alemão, não haverá lugar para os estrangeiros, os perdulários, os especuladores ou qualquer um que não seja capaz de fazer um trabalho produtivo.”

Liberty, 9 de julho de 1932




Gertrude Stein

“O escritor sério deve lembrar-se de uma coisa: que ele escreve seriamente e não é um vendedor. Se o escritor e o vendedor nasceram do mesmo homem, isso é uma sorte para os dois, mas se eles não nasceram, com certeza um matará o outro se forem forçados a viver juntos.”

The Atlantic Monthly, agosto de 1935




Pablo Picasso

“Não sou um surrealista. Nunca estive fora da realidade. Sempre estive na essência da realidade.”

New Masses, 13 de março de 1945





Mahatma Gandhi

“Alguém que busque a verdade nunca começará qualificando as declarações de seu opositor como indignas de confiança.”

Harijan, 14 de abril de 1946






John Kennedy

“Penso que, se vamos representar nosso papel de grandes defensores da liberdade – para cumprir todos os nossos compromissos, preparamos para uma população que será o dobro da que temos hoje – teremos de continuar a manter nossa estrutura de capitalistas. Temos que desenvolver nossos recursos naturais, construir escolas e hospitais, asilos e facilidades recreacionais, e todo o resto. E isso requer um grande esforço público, não somente a satisfação particular de nossas necessidades. Isso significa que os governos local, estadual e federal devem assumir suas responsabilidades, o que é sempre uma luta porque requer um escoamento do consumo privado – o que é imediato – para os fundos de consumo público, o que é menos óbvio para o indivíduo.”

The Sunday Times, 3 de julho de 1960




Marilyn Monroe

“Acho que em nossos dias estamos correndo demais. É por isso que as pessoas estão nervosas e infelizes – com suas vidas e consigo mesmas. Como é que você consegue fazer alguma coisa perfeita sob essas condições? A perfeição precisa de tempo.”

Marie Claire, outubro de 1960







John Lennon

“Se quisermos um rock n’ roll real, cabe a todos nós criá-lo e pararmos com essa neurose pela imagem revolucionária e o cabelo comprido. Temos que superar esse aspecto. Afinal, o que é o cortar o cabelo? Vamos confessar francamente agora e ver quem é quem, quem está fazendo algo por alguma coisa, quem está fazendo música e quem está produzindo bobagens.”

Rolling Stone, 21 de janeiro a 4 de fevereiro de 1971



Madame Satã

Perguntado sobre crimes que teria cometido

Sérgio: “Você não deu o tiro no guarda?”

Satã: “Não, o revólver é que disparou na minha mão. Casualmente."

Sérgio: “Foi a bala que matou?”

Satã: “Não, a bala fez o buraco. Quem matou foi Deus.”

O Pasquim, 29 de abril a 5 de maio de 1971



Fidel Castro

“Ninguém pode estar contra o conceito de direitos humanos. Mas responda-me: qual é a situação mais trágica e mais dramática do mundo atual? É a fome, a miséria, as doenças, a desnutrição, o subdesenvolvimento. E quem são os culpados por essa situação? O colonialismo, o capitalismo – inverta a ordem, o capitalismo vem em primeiro lugar – e o imperialismo. Dentro de suas próprias fronteiras, o capitalismo aqui significou o vício, o jogo, a prostituição, a discriminação do negro, o extermínio do índio, como ocorreu como nos Estados Unidos, a conquista de territórios, como também ocorreu com os Estados Unidos em relação ao México. Restou ainda esse espírito de raça superior, que é uma das mais repugnantes violações dos direitos humanos. Repito: você pode conceber algo mais degradante que a prostituição? Além disso, há o desemprego e, essencialmente, a exploração do homem pelo homem. Penso, portanto, que ninguém, de um país capitalista, tem autoridade para falar de direitos humanos.”

Veja, 13 de junho de 1977


Gilberto Freyre

“Nós sabemos que, com os atuais meios de comunicação, a televisão, o rádio e outros, a importância da alfabetização tem diminuído. Hoje você pode viajar e ir exatamente aos lugares que deseja, sem precisar ler: as farmácias têm um sinal que indica farmácia, os sanitários para homens e mulheres são identificados por figuras e não letras. Quer dizer, há uma superação crescente da letra, substituída por sinais e símbolos que vão se tornando uma característica cada vez maior de uma cultura moderna.”

Playboy, março de 1980



Garimpar. Selecionar. Um trabalho árduo, mas recompensado ao abrirmos o livro e nos depararmos com frases como estas acima.

E é justamente nelas que podemos constatar o total poder das palavras do teórico da comunicação, Edgar Morin:


“A entrevista desenvolve-se em direção das superindividualidades que reinam no mundo dos veículos de comunicação.”





Afinal, ao entrevistar alguém, repórter e entrevistado tornam-se (talvez com algum exagero), analista e paciente, vigário e penitente. Companheiros de exploração, mesmo que por apenas um par de horas.


Obs. Todas as citações foram retiradas da segunda edição, 1995, Editora Scritta

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