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Visões do Brasil


Ser brasileiro é no mínimo o prenúncio de uma grande aventura. Os pessimistas que me desculpem, mas quem pensa o contrário realmente não conhece nosso país, nosso povo.
Como brasileira sempre tive curiosidade sobre a nossa história. E uma excelente maneira de entendermos o nosso Brasil é conversando com os mais velhos. Ouvir histórias da minha Bisa contando como era o centro da cidade do Rio de janeiro entre 1929 e 1940... Ouvir minha avó paterna narrando seus encontros com a caipora (isso mesmo, foram mais de dois!). Saber do meu tio-avô como era Ilhéus, o Pontal, a Avenida Soares Lopes... Verdadeiros tesouros!
Mas se ouvir histórias é bom, vivenciá-las é ainda melhor. São tantas as aventuras. Muitas estampam um nítido retrato da nossa pátria. Uma delas chama-se Censo. Ninguém deveria dizer que realmente conhece o Brasil se nunca trabalhou num Censo do IBGE.
Eu tive essa oportunidade. Vi de perto as grandes dicotomias da nação.
Foi assim que conheci seu José. Um brasileiro, morador da zona rural, 43 anos que mais pareciam 60, lavrador, analfabeto. Dos 21 filhos que tinha, sabia apenas quem era o mais velho e quem era o mais novo. Dos outros 19 não sabia nem a data de nascimento e ainda confundia os nomes. Apenas 4 filhos tinham certidão de nascimento. Os outros, nenhum documento.
Encontrei essa figura na beira de uma estradinha tentando, há quase duas horas, uma carona para a cidade mais próxima. Mesmo com todos esses poréns, ele respondeu compenetradamente a todas as perguntas. Ao final (e olha que demorou) ainda nos conseguiu a carona também (e olha que éramos 5). As pessoas que tive a oportunidade de recensear na zona rural foram todas muito prestativas, gentis e cordiais, mesmo quando impregnadas de uma simplicidade extrema. Muitas vezes nos presenteavam com frutas e sentiam-se profundamente ofendidas se recusássemos.
Mas conheci também um outro José, com 51 anos, dono de restaurante. Todo tirado a importante fazia questão de não receber o recenseador, recusando-se a dar as mais elementares informações. Depois de inúmeras tentativas, eu (que era supervisora) resolvi fazer-lhe uma visita pessoal. Depois de me fazer esperar mais de 40 minutos, me recebeu como que fazendo um favor. Realizei a entrevista. Quando chegou a hora de declarar sua renda, o homem empacou de novo. Não sei porque cargas d’água cismou que os dados seriam cruzados com as informações da Receita Federal. Levei quase meia hora para explicando que uma coisa nada tinha haver com a outra. Então ele declarou a renda e praticamente me colocou para fora. Foi ai que tive certeza: o homem deveria ser um sonegador do imposto de renda. Que coisa!
Essa vivência trouxe várias convicções:

1°Riqueza e erudição nada tem haver com caráter e hombridade.

2°Cordialidade e Educação realmente vêm de berço, mas ele ser de ouro não é prerrogativa para que você as possua.

3°Altruísmo e solidariedade: na grande maioria das vezes quem tem pouco doa mais.

4° Visual: as aparências não enganam. Elas atropelam seus julgamentos. Be careful!

5°Compreensão e aceitação: Sempre temos algo a aprender com o outro, ainda que você tenha convicção do contrário.

Outras experiências

Em uma outra vez, recebi um senhor irado por não ter sido recenseado. Agora imaginem: Ele havia abandonado a esposa, morava com outra mulher, foi recenseado no novo endereço mas, queria que o nome dele constasse no questionário referente às informações da ex-esposa. Mas sabem por quê? Na cabeça dele o juiz da vara civil iria aumentar o valor da pensão se soubesse que para o IBGE o sujeito não vivia mais sob o mesmo teto da esposa e dos filhos. Loucura!
E ainda teve o caso do doido. Um homem maluco que vivia sozinho e ao menor sinal da recenseadora atirava pedras na pobre coitada. Demorou um pouco mas encontramos a solução: mandamos um recenseador “guarda-roupa”. Nosso “doidinho” foi muito simpático.
Agora a grande odisséia foi recensear um acampamento sem terra. Realmente E-N-O-R-M-E! Um mutirão composto por recenseadores e supervisores, entrevistou em 3 dias, mais de 300 famílias.

Mas se a grande odisséia foi essa, o mais encantador desafio foi recensear a zona rural. Andar quilômetros para encontrar um habitante ou dois. Atravessar rios cruzando pontes improvisadas por troncos de árvores tombadas. Torrar no sol. Ouvi muitas histórias como a da recenseadora que encontrou uma jaguatirica e saiu correndo mato adentro; a do recenseador que resolveu descer uma serra de bicicleta e acabou no hospital; a de uma tribo de índios nunca antes recenseada. Coisas que você escuta, guarda, reconta. Imagens de um Brasil que muita gente nunca vai conhecer.

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©2007 '' Por Elke di Barros