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No Cabaret de Lacan


No milenar duelo entre imagem e palavra, quem realmente é o favorito? Uma pergunta um tanto quanto complicada.
Jacques Lacan foi um psicanalista francês, um dos grandes teóricos estudiosos da imagem e seus significados. Sua obra foi responsável pela estruturação de toda uma corrente de pensadores, que entre outras coisas, acreditava que
"os símbolos são mais reais que aquilo que simbolizam, o significante precede e
determina o significado”.
Encontramos em Lacan uma longa reflexão sobre a linguagem, a fala, a língua, a palavra, o significante e, sobretudo, sobre a letra e a escrita, tudo atrelado e interpretado pela análise da imagem. O livro De um Discurso que Não Seria Semblante é um bom exemplo disso. Foi através de sua leitura que minha percepção sobre o tema tornou-se mais aguçada.
O filme é Moulin Rouge (um dos meus preferidos). A cena é aquela em que a cortesã Satine (Nicole Kidman), o jovem escritor Christian (Ewan McGregor) e sua trupe teatral tentam (depois de um hilário mal entendido) convencer o Duque de Monroth (Richard Roxburgh) a investir em um novo espetáculo. Cada personagem vai somando fantásticos argumentos ao possível mecenas. Uma sucessão de idéias amarradas tão improvisadamente que acabam por fazer sentido. Fosse pelos diálogos, a cena por si só valeria. Mas há um que alem das palavras. Algo que pode até escapar dos nossos ouvidos, mas não foge a nossa compreensão: a força dos significados ocultos, dos ícones, das entrelinhas.
Na verdade, pode-se até dizer que o quê esta sendo dito é muito menos importante do que aquilo que está rolando. É justamente aqui que a expressão facial faz toda a diferença. E se as janelas da alma são os olhos, é aqui que derramam todos os seus segredos e íntimos desejos. São os olhos que transmitem o desejo do Duque por Satine, a paixão de Christian pela meretriz, a cobiça de Zidler pelo dinheiro do Duque.



Porém se isso é ficção, o que dizer da vida real?
Ledo engano pensar que a vida imita a arte. Na verdade é a arte que imita a vida.
Tudo que criamos é produto do que vivemos, sentimos, aprendemos. Ao vivo e a cores buscamos interpretar mensagens, intuir intenções, adivinhar propostas. Sempre nos atendo às “embalagens”, ao discurso superficial. Colocando antolhos para que enxerguemos apenas o nosso objetivo final, tal qual um cavalo teleguiado.
Já faz um tempo, chegou às minhas mãos (através do meu amado amor) um artigo de Arthur da Távola. Leia Aqui
O tema do texto era o discurso e, em linhas gerais, transmitia a seguinte idéia:

Você não ouve o que eu digo,
Ouve o que deseja escutar.

Nas palavras de Arthur vi minhas idéias se personificarem, de maneira muito contundente. O que era abstrato e etéreo tornou-se concreto e límpido.
As palavras sempre me encantaram (não é por acaso que sou jornalista) mas, foi somente depois de Arthur que compreendi que sou realmente responsável por aquilo que escrevo mas, nunca serei culpada pela leitura (interpretação) que fazem de minhas palavras.
Voltando a questão da imagem.
Você realmente já se perguntou o quanto uma mera propaganda de revista pode está carregada de simbolismos, mensagens subjetivas? Garanto que é muito mais avassalador do que possa imaginar. Faça o teste (eu já fiz). Escolha uma propaganda e tente identificar pelo menos 3 outras mensagens. Além daquela que é explicitamente obvia. Analise tudo: as cores, as formas, a simetria, a ordem, os ângulos, os elementos...
Se você conseguir encontrar 3 mensagens a mais, ótimo!
Se encontrar mais do que isso, parabéns! O mundo nunca será capaz de colocar antolhos em você.
Vale a pena tentar.

Meu Teste

Nos anos 90 a Duloren causou muito estardalhaço com suas campanhas publicitárias audaciosas e provocantes. Personalidades como Roberta Close, Dercy Gonçalves e Rogéria estampavam anúncios de lingerie até então nunca imaginados em uma propaganda de roupa intima no Brasil.
A propaganda que utilizei para iniciar meus estudos iconográficos faz parte dessa campanha. E acabou sendo a substituta de um outro anúncio que foi censurado, pois, trazia uma freira trajando um espartilho preto da Duloren e a imagem do Cristo redentor de olhos fechados.

O anúncio que escolhi era composto de 02 páginas, divididas assim:
Uma página esquerda totalmente negra. Ao centro uma imagem da famosa estátua “O Pensador”, do escultor francês Auguste Rodin (1840-1917). Acima da cabeça da estátua, 3 camisinhas pairavam alinhadas diagonalmente. Apenas isso.
Na página direita a cena era a seguinte: uma mulher vestida em uma lingerie preta, que muito lembrava uma combinação utilizada pelas mulheres do século passado. Seu cabelo e sua maquiagem também eram condizentes com o figurino. O piso imitava um tabuleiro de xadrez, alternando quadrados brancos e pretos. Paredes verdes e ao fundo uma escada, adornada de dourado, subia em direção a algum lugar desconhecido. Nenhuma mobília a vista. E a única frase da propaganda era: “Você não imagina do que uma Duloren é capaz”
Então, qual era o significado de tudo isso?
Quando se parte da premissa de que tudo está arrumado por buscar uma intenção final, torna-se mais fácil interpretar.
Então vamos lá.
1° A estátua e as camisinhas
A mensagem é: o apelo sexual da lingerie é tão intenso que é capaz de fazer até o “Pensador” pensar em sexo. O fundo negro da página evidencia algo como um desejo contido nas profundezas do inconsciente, do Id.
2° A modelo e a lingerie
O figurino foi bem escolhido, pode ser dizer a dedo, pois torna a modelo quase uma contemporânea do escultor Rodin.
3° O cenário
A composição do cenário é toque mais cheio de simbolismos. Ela caracteriza ainda mais a cena como algo vivido no século passado.
O dourado da escada transmite a idéia de riqueza, poder. O piso (imitando um tabuleiro de xadrez) invoca a idéia de que a sedução é um jogo, e de que feminino e masculino devem coabitar em equilíbrio, como o Yin – Yang. Tudo para nos conduzir a possibilidade de que a cena se passe em um tipo de Bordel, um cabaret.
Gostou?
Então agora é a sua vez. Escolha sua propaganda e mãos à obra!
Como Disse Lacan:
“Entre o gozo e o saber, a letra faria o litoral” (D’un discours, p. 117).

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