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Escravas Brancas


Com toda a certeza você já escutou o grande sucesso de João Bosco: Mestre Sala dos Mares. Mas já parou alguma vez para reparar neste trecho da música:

“(...) Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas (...)”

Esses simples versos passam realmente despercebidos, mas, não deveriam. Eles trazem a tona as reminiscências de um grave e antigo problema brasileiro: tráfico de mulheres.
Ornado sob um véu de mistério e luxúria, esse iceberg encontra-se ancorado nas profundezas de um mar sem fim.
Mas quem seriam as jovens polacas cantadas nos versos acima?
Resposta bem simples: jovens européias, de várias nacionalidades, trazidas para o Brasil como escravas sexuais no final do século XIX. O mais chocante em tudo isso é que a grande maioria era judia.
A presença de mulheres de origem judaica na prostituição das principais cidades brasileiras como Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Santos era fato conhecido desde o final do século XIX. O número exato dessas mulheres é desconhecido, mas as estimativas apontam que mais de 10 mil mulheres foram trazidas para o Brasil através do tráfico internacional, entre 1908 e 1930.
O grande número de mulheres judias entre as prostitutas presentes no Brasil do início do século, fez com que o próprio termo polaca passasse a ser sinônimo de meretriz.

Enganadas por homens (judeus) que se passavam por criaturas idôneas e bem intencionadas, elas casavam-se na Europa com os “angelicais” traficantes. Depois eram convencidas a tentar a vida no Brasil. Começava aí o pesadelo. Na esperança de um futuro melhor (fugindo do anti-semitismo) elas acabavam por embarcar naquela que, em 99% das vezes, acabava por ser a ultima viagem de suas vidas. A grande maioria era obrigada a prostituir-se ainda no navio, durante a viagem. E isso era só o começo. O cáften (como era chamado o traficante judeu) escravizava a esposa enganada, obrigando-a a vender o corpo para sustentar o meliante.
Alguns estudiosos deste fenômeno descrevem essa figura como: “capaz de vender a própria mãe ou de fazer tudo o que fosse necessário para garantir seu lucro e sua sobrevivência. Tal qual o demônio, podia travestir-se em uma pessoa instruída, elegante, que conhece o mundo. Desprovido de senso moral o cáften ri-se do pudor, da honra, da amizade, do amor, do patriotismo, da inocência, e só crê na magnificência do vício e na grandeza do dinheiro”. Torturadas, maltratadas, humilhadas e chantageadas, as jovens acabavam por entregar-se a famosa “Vida fácil”, que de fácil, realmente nada tinha. Sua origem racial agregava um peso funesto a sua situação. Baseados no ensinamentos do Antigo Testamento, os judeus repudiavam a prostituição: “Não haverá rameira dentre as filhas de Israel;” (Dt 23.17). Vender o corpo era uma atitude abominada tanto na esfera religiosa quanto na moral pelos israelitas. Era justamente este trecho das escrituras que muitas vezes era utilizado pelos cáftens para chantagear suas exploradas “esposas”.
Sob o temor moral e da própria fé, elas acabavam sucumbindo à vontade o algoz. Julgavam ser mais honroso para suas famílias que acreditassem na mentira de uma vida próspera, ou recorriam ao artifício de declararem-se mortas.
Naqueles idos já havia a preocupação internacional de deter o tráfico de mulheres, mais especificamente o de mulheres brancas, numa clara indicação de que a prostituição de européias escandalizava o velho mundo. Paralelo a tudo isso, a figura do judeu degenerador acabava por disseminar ainda mais o anti-semitismo pelo mundo. As operações realizadas pela polícia brasileira com o intuito de combater o lenocínio possuíam um caráter fortemente discriminatório e preconceituoso. O estigma construído em torno da figura do cáften judeu, tanto pelo discurso anti-semita, como pelo discurso criminalista, levava à perseguição constante de grupos de judeus e à sua expulsão do país.

Mas apesar disso o tráfico continuava atuando. Seu declínio só veio a acontecer nos anos 40, quando dois fatores, quase que concomitantemente, marcaram a derrocada desse monstruoso episódio da nossa história: o extermínio do povo judeu pelo nazismo e o fim das zonas de meretrício no Rio (do Mangue e da Lapa) e em São Paulo (Bom Retiro).
Talvez o mais aterrador em toda essa cruel história seja o fato de que as pobres enganadas não encontravam apoio e compreensão nem mesmo dentro da sua própria raça. Sempre foram discriminadas, em especial pela própria sociedade judaica no Brasil, chegando ao cúmulo de lhes serem negados direitos, como por exemplo, um enterro digno. Muitas não foram capazes de sustentar tão árduo fardo e acabavam por sucumbir, recorrendo ao suicídio como forma de fugir deste pesadelo. Não era raro encontrar em jornais daquela época notinhas de informe sobre moças que se matavam bebendo creolina e lisol. Tentando lhe dar com esse revés, muitas delas organizaram-se e fundaram associações, que dentre muitas coisas, construíram cemitérios especialmente para elas e seus descendentes. Um destes cemitérios fica em Inhaúma, Rio de Janeiro. A polemica em torno deste assunto traz tremores e palpitações à sociedade judaica até os dias atuais. É uma parte de sua história que eles gostariam de apagar. Há dois anos, em 2007, tudo isso voltou a baila quando um projeto de recuperação e tombamento do Cemitério das Polacas dividiu a opinião da comunidade judaica.
Apesar da dramática história, as jovens polacas tornaram-se parte da cultura boêmia brasileira.
Para nossa surpresa encontramos algumas colaborações das “Polacas” em nossa construção lingüística, em especial palavras populares. Quando suspeitavam que um cliente tinha uma doença venérea, diziam ein krenke (“doença”, em iídiche), que acabou se transformando em “encrenca”. E, quando a polícia dava incertas nos bordéis, elas gritavam sacana (“polícia”) – que virou “sacanagem”.
Quem quiser saber mais sobre esse assunto vale a pena ler Jovens Polacas, da Miséria na Europa à Prostituição no Brasil, da escritora baiana ESTHER LARGMAN. É simplesmente fabuloso!

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©2007 '' Por Elke di Barros