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O lado Negro da Força



Assistência Social. Muita gente realmente desconhece a profundidade do significado destas palavras.
No Brasil, quando se fala sobre este assunto, lembra-se logo de programas sociais de assistência como o Bolsa Escola e o Bolsa Família. Mas estes não são nem de perto a totalidade da abrangência do termo Assistência Social. São apenas a ponta do iceberg. A parte bonita da coisa. Sim, porque não estamos falando de “Guerra nas Estrelas”, mas aqui também existe um lado negro da coisa.
A grande maioria dos brasileiros desconhece o fato de que existem em cada município do país, um Conselho Municipal de Assistência Social. Qualquer cidadão pode ser membro, desde que seja eleito para o cargo de Conselheiro.
Pois bem, tais Conselhos tem como proposta ajudar a fiscalizar as finanças públicas destinadas a esta área, formular políticas para melhoria do emprego dos recursos, sugerir projetos de lei para avanço nas questões de desigualdade sociais, discriminação e miséria.
Uma nobre causa. Algo realmente altruísta e humanitário, sem remuneração financeira. Um ideal enaltecedor, não fosse o dedo pobre do homem ambicioso e sedento de poder.
O que vou relatar agora é fato. Fui participar de um Congresso, de um desses Conselhos de assistência Social. Não direi onde e depois vocês entenderão porquê.
O evento aconteceu o dia todo, tendo a parte da manhã sido destinada às palestras. Tudo envolvendo temáticas ligadas à melhoria da qualidade de vida dos deficientes. Tudo Ok. Durante à tarde, ocorreram os trabalhos em grupo e, posteriormente, a apresentação de propostas. A plenária escolhia as mais interessantes, que constariam de um texto final a ser apresentado em um outro Congresso, e depois encaminhado às autoridades competentes. Haviam representantes de todos os segmentos: sociais, governamentais e privados.
As propostas se sucederam em uma velocidade absurda, com explicações superficiais e raramente contestadas.
A coisa ia assim, até que se tocou na questão do Transporte. Houve uma rebelião. Não sei se o leitor já ouviu falar de um sistema de transporte chamado “Transporte Cidadão”. Bem, se não ouviu, explico: é uma espécie de Cala Boca, oferecido por empresas de transporte coletivo urbano. Elas disponibilizam uns poucos veículos adaptados para deficientes, que transportam, gratuitamente, os que necessitam de atendimento médico hospitalar. Assim parece até bom. Mas porque disse que era um Cala Boca? Porque assim os empresários não adequam o restante de sua frota de veículos às necessidades de quem é especial. Poupam dinheiro e obrigam os deficientes à humilhante condição de quem “mendiga”, desconsiderando o direito constituído por lei, que todo brasileiro tem de ir e vir.
Voltando à rebelião. Sugeriu-se que fosse extinta a necessidade de agendamento prévio (sim, porque ainda tem isso) para a utilização do serviço. A plenária confabulava, quando uma representante da empresa de ônibus manifestou-se e soltou a seguinte máxima: “Assim não dá, as pessoas são irresponsáveis. Vai virar uma bagunça. Brasileiro não sabe ser organizado”. Agora pasmem: a mulher era deficiente física, paraplégica! Dá pra acreditar? Fiquei tentada a perguntar se o nome dela era Joaquina Silvério dos Reis, pois qualquer semelhança com o traidor de Tiradentes não seria mera coincidência.
Bom, não sei de que brasileiro ela estava falando. Devia ser ela mesma. Pois nada é mais ilógico do que uma pessoa que faz fisioterapia todos os dias, precise ligar diariamente para marcar o lugar no ônibus. Isso é incoerência.
A coisa não parou por aí. Eis que surge o herói. Um velhinho, deficiente físico, levanta-se e grita: “Peraí. Não tem nada de ligar não. Isso é besteira. Tem sim que adaptar todos os ônibus à realidade de quem é deficiente”. Aí o burburinho se instalou. A mesa não sabia o que determinar. É aí que se vê a vilania humana: para não ir de encontro à posição da empresa, o relator da mesa determinou que constasse no relatório final apenas sugestão do aumento da frota adaptada. Nenhuma menção ao “Transporte Cidadão”.
Comecei a estranhar mais ainda a velocidade como as questões eram apresentadas e votadas. Então entendi o porquê: eles queriam chegar logo à parte da eleição do Conselho.
Terminada a votação das propostas, veio o pulo do gato: o relator da mesa anunciou que havia um lanche disponível para os participantes, servido no salão aos fundos do auditório. Nem precisa dizer que a multidão debandou para a Boca Livre.
Então chegou a hora da cartada final: com muito menos de 1/5 deu-se início à votação. Imaginem que dos que ficaram mais da metade era candidato. Imaginem ainda que os que ficaram para votar foram surpreendidos com a notícia de que os próprios candidatos escolheriam entre eles quem seria eleito. Nunca vi uma coisa tão surreal. Nesse ponto me perguntei: “Onde ficou a democracia depois de oferecido o pão e o circo?”
Em que acabou? Vocês nem vão acreditar. De todos os candidatos (que eram 31), apenas um não foi eleito. Agora sabem por quê? Haviam 30 vagas, e se tirou no papelzinho quem seriam o único a não entrar para o Conselho.
Mas você deve estar queimando os neurônios para entender porquê tantos queriam os cargos de conselheiro, se não são remunerados. A resposta é simples: poder de influência. Imagine fiscalizar as finanças públicas de uma área como Assistência Social? Imagine que teria o poder de denunciar qualquer ato de corrupção. Daí você já entendeu onde isso pode chegar. Tudo leva ao mesmo ponto convergente: a ambição humana.
Não estou querendo dizer que todos os participantes se deixarão levar pelo lado negro da força. Mas o que se esperar depois de tudo isso?
Muita coisa. Há aqueles que lutam em prol de seus ideais e convicções altruísta. Suas vozes não poderão alcançar o necessário enquanto a ambição sobrepujar a nobreza humanitária. Eu estarei lá quando este dia chegar, e verei direitos serem distribuídos ao invés de pão; e debates aprofundados e eleições verdadeiras, invés de circo.
E você, onde estará?
Assistência Social, a ponta do Iceberg.
Agora você já sabe porquê não posso dizer onde isso aconteceu. É vergonhoso demais.

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©2007 '' Por Elke di Barros