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Paulo Afonso e Henrique Alberto




Paulo Afonso era um simples bibliotecário, uma pessoa introvertida, sem amigos ou sonhos de consumo. Possuía duas paixões. A primeira, como não poderia deixar de ser, era os livros. A segunda, a vida alheia. Sua vida limitava-se a organizar estantes, classificar livros, auxiliar algum leitor e explorar exageradamente a vida dos vizinhos.
Todas as noites, após o jantar, Paulo Afonso seguia a mesma rotina: abria a gaveta da escrivaninha, pegava papel e caneta. Dirigia-se para a janela. Só então lembrava-se de que havia esquecido de apanhar os binóculos. Desesperava-se, pois nunca se lembrava com facilidade onde os havia deixado. Com um esforço incrível recordou em que local havia colocado os tão indispensáveis binóculos, estavam no congelador do freezer.
Após encontrar o seu principal elemento de observação, Paulo Afonso dirigi-se à janela, esperando os acontecimentos. A rua estava calma, vez ou outra um carro passava. Nosso observador anotava tudo em papéis; classificava-os e os organizava em arquivos.
Chega a madrugada; Paulo Afonso continua plantado na janela. Quando já estava por desistir, o sono chegava, percebeu um falatório na rua. Era um casal aparentemente bêbado. Nem precisa dizer que o sono de Paulo Afonso foi embora. Binóculos em punho, ele começou a analisar minuciosamente a cena que se passava. O homem, vestido a rigor, estava abraçado a uma mulher loira que trajava um longo vestido vermelho. No mesmo momento reconheceu o homem: era Henrique Alberto, morador da casa em frente. A mulher, que não era a esposa de Henrique Alberto, era desconhecida para Paulo Afonso. “Quem será ela?” – perguntava-se o espião. Talvez, ou melhor, uma amante.
O espião continua observando a cena. Vê o casal entrar na casa de Henrique Alberto. As luzes do quarto são acedidas. O casal fala e gesticula freneticamente. Paulo Afonso conclui que se trata de uma discussão. Mas qual seria o motivo? Naturalmente algo acontecido na festa ou evento de onde vieram. De repente Paulo Afonso recorda-se: a mulher de Henrique Alberto, Vânia Maria, estava viajando, pois ele próprio tinha visto o marido carregar as malas da esposa para o carro. Conclui então que a loira fatal só poderia ser a amante.
Neste momento, Paulo Afonso vê Henrique Alberto perseguir a loira com um pedaço de pau. É um crime. A loira gritava, corria e Henrique Alberto correndo atrás. Com receio de que aquilo se agravasse, Paulo Afonso resolve ligar para a Polícia. Enquanto disca, percebe que os gritos da loira pararam. O espião fica estático. A Polícia chega. O observador continua olhando. A casa de Henrique Alberto é invadida. Ele é arrastado para fora. De repente uma surpresa: a loira também é arrastada. A Polícia pede uma explicação. Henrique Alberto fala: “Ela é minha irmã e eu só queria matar uma barata...”
Nada é o que se vê realmente.
Tudo é o que desejamos ver.
Hitchcock que o diga.

6 comentários:

Rede Mundo disse...

Como sempre, brinca com uma propriedade singular ao escrever. Nos fazendo gostar e acreditar que qualquer um pode. Inimaginável é não se deliciar com o que vc escreve e da forma que escreve ou com os textos que escolhe!
Eu sou seu fã de carteirinha e como fã que sou, nada mas me resta a não ser te admirar.
Beijos a minha Amada Imortal,
Do seu...
SR.

mfc disse...

Surpreendentemente lindo!
Parabéns.

Roberto Watanabe disse...

Hilário!!!
Adorei.

Alex Melo disse...

Bom, não podia deixar passar em branco a simbolica referência ao filme "Janela Indiscreta". Show de Bola.

Paloma F disse...

Gostei dos nome e da loira com a barata. Vc é sempre uma surpresa.

Marcio disse...

Ainda bem que ele não matou a loira..ahahahahahha

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